Casaco Azul
Era assim. Na escuridão da noite eu procurava o corpo paterno. Aconchegava-me ao seu lado e punha atenção no compasso do seu respiro de homem. A tudo eu contemplava. A voz grave, a postura das mãos e a delicadeza de seu olhar. Tudo observava em silenciosa admiração. A barba grande, o olho capaz de enxerga-me no escuro, o alívio do medo, a devolução da vida. Meu pai e seu mundo profundo. Eu e meu pequeno mundo de criança. Ele, na liberdade de uma vida que decidiria ter o seu próprio fim. Eu, depois do fim, na solidão de sua ausência Me tornei uma criança sozinha. Introspectiva. Não gostava de me relacionar. Quem eu queria que tivesse partido era minha mãe. Naquela idade eu não precisava dela, ele era o meu primeiro amor. Rejeitava minha doce mãe, sem saber porquê. Vestia o seu casaco azul que cabia duas de mim. Tinha o seu cheiro. Parecia que sua presença sempre estava pronta a me acolher dentro de um simples pedaço de pano. Partiu só. Cheio de medos, mas acompanhado por esperanças. A juventude nos olhos. Mente experiente, corpo de jovem. Seus medos lhe asseguravam repousar em noite mais frias. Depois dos trinta e três anos tudo mudaria. Por isso partiu antes da mudança. Partiu jovem. Procurou a si mesmo em corpos mais frágeis. E não conseguiu se achar, pois também estava fraco demais para ser achado. A saudade é o bilhete que antecedeu a mudança. A conversa que teve comigo que não lembro, pois a minha idade era quase aos seis anos. Uma manhã estranha aquele dia amanheceu. Meu cavalo estava triste. Morreu pouco tempo depois de tanta tristeza. Naquele dia me tiraram dali, a pedido dele. A saudade é o seu casaco azul que ficou no meu corpo todas as noites. A sua figura imaterial nos recônditos do meu ser. O sangue que corre na minhas veias. A mente impulsiva, os genes da sua alma frágil aqui ficam. Nos garotos por quem eu me apaixonei, sua figura estava. O casaco azul foi doado. A dor da criança sem pai já passou. A sua figura paterna na vida de uma adolescente também esteve lá. Partiu só. Cheio de medos, mas com uma esperança. A mesma que eu tenho. Pai, estou aguardando o grande dia de glória, o dia em que Deus vai lhe acordar desse sono profundo. E lhe darei um novo casaco azul.
Primeiras cinco linhas retiradas de uma crônica do Livro: ''O destino das ausencias''. M.F

Comentários
Que lindo é o seu coração e quão profundos os seus sentimentos. Só Deus em sua vida para ter sobrevivido à dor da ausência paterna sem a compreensão e aceitação de ser sua companheira, a partir de uma fase tão tênue. Mas você sobreviveu e hoje vive a esperança do reencontro quando ele for acordado no Grande dia. Tenho também esta esperança. Amo Você. Tia Ana.