O Rascunho sem carta
Alguma coisa eu queria que me confortasse. Qualquer coisa que fosse capaz de me dar aquela doce sensação de alívio. Podia ser uma música, um aroma, uma prece, uma lembrança, ou o som de uma voz. Talvez naquele momento precisasse mesmo das palavras que pudessem responder minhas singelas pretensões. Singelas porque são pedidas através de preces, e preces para mim são sagradas, algo que colocamos em primeiro lugar de nossa vida. Em prioridade.
Carta e um papel em branco. Linhas paralelas esperando o contorno de uma escrita vazia, sem resposta. Eu poderia perguntar-lo tantas coisas... da indecisão de um encontro, da ligação sempre adiada, dos diálogos interrompidos, mas não, isso talvez eu saberia a resposta. Então o que eu o perguntaria? Por algo que deveria ter acontecido e não aconteceu? Perguntaria por que não encontramos água tão facilmente em um deserto? Ou verduras verdes em um pomar cheio de pragas? Perguntaria por algo que não teria explicação nenhuma? Não. Definitivamente deveria ignorar todas essas perguntas. E talvez tentar entender o que não se pode entender tão facilmente. Porque a mente nunca entende tudo né?
Olho para um horizonte pálido, cercado de quatro paredes. Sozinha, calada, só em pensamento. Morta de qualquer preenchimento alheio, só o de perceber-te. E tu, será que percebes? Será que tu faria as mesmas perguntas? Quais seriam tuas indagações? Se é que tens alguma. Se é que já não se conformaste com tudo. Entendes a vida fácil assim? Tu, que pareces ter sensações petrificadas... Me parece pálido, tímido, cada vez mais distante.
..Naquele momento decidi ouvir o som do meu próprio silêncio. Porque conforto nenhum eu acharia. Esse alívio jamais encontraria, é um espaço que estará sempre vazio. Olho para o papel ainda em branco. Tudo na minha cabeça, palavra por palavra, mas o papel ainda em branco. Calada. Hesitei-me outra vez.
’’From this dark cold hotel room
And the endlessness that you feel
You are pulled from the wreckage
Of your silent reverie
You're in the arms of the angel
Maybe you find some comfort here’’…


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