Eu não desisto de você



Superficialidade das lembranças. É como ignorar tudo o que já viveu. Jogar no lixo e começar de novo. Jogar como? Primeiro, nada que jogamos fora fica sem utilidade. Sempre alguma coisa serve pra outra coisa. Isso se chama aprendizado. A nossa vida é cheia de reparos e reciclagens. Reciclagem de sentimentos. O que eu ainda não descobri como se faz. Mas aprendi muita coisa. Pensava pra agir, e hoje eu ajo pra pensar. Alguns o chamam de estratégias elementares, jogar o corpo fora, partir pra outra. O fato é que não dá pra deixar pra lá o que já se tornou importante demais. E o que é importante demais tem lugar, e um lugar restrito, acima de qualquer outro. Que mora num lugar gostoso de guardar.

Um outro dia qualquer, a gente lava o rosto e brinca de viver de novo, faz de verdade fazendo de conta que é de mentirinha, joga as coisas na própria cara, vive como se não tivesse havido nada de importante antes. Como se tudo fosse novo pra você, quero dizer. Mas houve. E sentiu. Age como se o corpo reconhecesse, mas ele não reconhece, porque aquele jamais te pertenceu. E você brinca de pertencer. E deixar que eles te pertençam. Desiste até de acreditar em si mesmo. Pois o corpo age contra sua mente. As peças não se encaixam, e os dois não entram em conformidade. Você age sem sentir. Você sente sem agir. As diferenças passam a ser maiores. Alguns se enganam numa estratégia, e agem como se gostassem de ouvir a outra pessoa dizer que há um outro alguém, que passa a conhecer outros olhos, de perceber sem ouvir, a brincar de seduzir pra no final, tentar algo sério. E ás vezes dá certo. Ele reciclou seus sentimentos. Você não.

Chamam isso de saudade, e outros chamam isso de persistência. Deve ser saudade mesmo. É como se alguém nunca desistisse de sentir o que sempre sentiu por outro alguém. Simples assim. E as histórias de príncipe e princesa já se tornassem histórias de gente que vive um amor sem lei, um desamor, amores sem cor, corpos sem amor. Porque ninguém fica sozinho. Sempre tem alguém de verdade-mentirinha em nossa vida, na vida de alguém. E isso devia ser proibido: Brincar de sentir. Alguns podem chamar isso de superficialidade, de falta de reciclagem. Porra, dá pra viver de verdade? Já eu, chamo isso de: Eu não desisto de você.

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