Uma Crônica Monocromática

Quem perde algo muito importante não lamenta, espera. Ou pelo menos deveria. Por mais difícil que seja evitar o silêncio, o tempo, o abismo. A gente deveria esperar. É preciso. Dói, mas é preciso esperar. O silêncio tagarela, grita, não tem aquela voz calminha que faz a gente dormir bem, que ameniza qualquer agonia. Não , não tem. Ele tem uma voz firme, como fosse dono do tempo, dono das circunstancias. E realmente tem todas as razões. Virou um substantivo. A gente só escuta o silêncio e consegue ouvir o som na nossa própria voz, voz alta dentro de nós.


Quem lamenta é porque perdeu todas as esperanças. Não soube respeitar o tempo. Ela não lamenta. Ela está esperando. E está conseguindo ter forças para isso. Já viu tudo se perder a um palmo do seu nariz, quem lamenta. Quem lamenta perdeu tudo, até mesmo antes de algo ganhar. Nem tentou, lamentou, hesitou. Afasta qualquer coisa mágica que a vida possa te dar, afasta a felicidade que chega de mansinho pra depois tomar conta de tudo. E quebra o silêncio antes que ele possa falar o que a gente precisa ouvir.

Não lamenta garota, espera.

-Está bem, vou esperar.

O arco-íris ainda está monocromático. Mas ele ainda há de ser colorido, e bem colorido porque são sete cores. Sete perfeitas cores da vida. O quebra-cabeça ainda precisa ser montado. As peças estão todas encima da mesa, intactas. Os retalhos ainda estão separados, pois o vestido ainda precisa ser feito. As partituras na estante, a música ainda nao foi tocada. A coreografia na cabeça, toda ensaiada. Folha e papel. A carta ainda não foi escrita. O silêncio há de calar. Ele fala demais. Numa voz que tira toda a tranquilidade daquela garota. Mas espera garota, que essa cor pálida vai desbotar.

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